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23 de março de 2021Tal como tantos outros, a história e cultura do antigo Egito sempre me fascinaram. Como tal, foi um tremendo privilégio ter tido a oportunidade de viajar até Saqqara, no Egito, para fazer as filmagens de "Os Segredos de Saqqara". Durante a abordagem ao filme, foi com grande surpresa que constatei o quanto ainda não sabemos acerca de tão extraordinária e importante civilização.
Capturar a escavação do túmulo milenar de Wahtye e a exploração da área circundante foi um grande desafio para todos os envolvidos nesta missão, que se tornou uma aventura épica e histórica que superou todas as nossas expetativas. Não há como negar que fomos uns privilegiados do princípio ao fim desta aventura. Na arqueologia, não é infrequente trabalhar-se durante semanas sem nada encontrar no fim. Mas, nesta missão, parecia que se descobria algo de impressionante a cada 30 segundos! Ainda bem que pudemos estar presentes para capturar esses momentos e partilhar as descobertas com o mundo.
Encontrar uma janela para todo um outro mundo
O cerne do filme é a escavação do túmulo de um antigo sumo-sacerdote egípcio, o que transporta os espetadores milénios atrás e lhes serve como uma janela única e sem precedentes para as vidas (e mortes) de um homem de há 4400 anos e da família dele. Ao longo desse processo, pudemos testemunhar a exploração da necrópole que rodeia o túmulo, na qual os egípcios enterraram os mortos ao longo de milhares de anos. Foi uma autêntica aventura, que nos permitiu explorar uma seleção variada de tesouros, incluindo poços com animais mumificados, múmias humanas dentro dos seus belamente ornados caixões, artefactos funerários que incluem um raro conjunto completo do jogo 'senet', e mais de três mil outros incríveis artefactos raros do Império Antigo e do Novo Reino, bem como da Época Baixa. Tudo isso assegurou aos espetadores uma impressionante viagem visual que englobou praticamente toda a história do antigo Egito.
A descoberta da primeira cria de leão mumificada
Para mim, a experiência que se destacou de todos os momentos inesquecíveis que capturámos com as câmaras foi o momento da descoberta da primeira cria de leão mumificada de que há registo, um achado que mereceu destaque na imprensa de todo o mundo. Vê-la emergir da cascata de pó de uma pilha de múmias de gatos no fundo de um poço de 11 metros foi uma experiência que jamais esquecerei. Nas palavras da Dra. Salima Ikram, professora de Egiptologia na Universidade Americana do Cairo, tratou-se de «uma descoberta única que muda a forma como pensamos acerca da história, cultura, economia e práticas religiosas do antigo Egito».
Descobrir uma doença antiga
Escavar o túmulo de Wahtye foi uma tremenda empreitada, e outro momento alto deu-se quando os arqueólogos descobriram por fim os restos mortais do sumo-sacerdote e da sua família inteira. A análise forense aos ossos pela Dra. Amira Shaheen, professora de Reumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Cairo, revelou distensões ósseas que «indicam que toda a família poderá ter morrido de uma doença ou epidemia, provavelmente malária». Uma teoria que, a ser provada, representará o mais antigo caso documentado de malária da história, mais de 1000 anos antes do mais antigo registo atual.
Descobrir os segredos da equipa por detrás da escavação
Um dos maiores prazeres de fazer este filme foi ter tido a oportunidade de demonstrar as aptidões e dedicação da talentosa equipa egípcia liderada pelos egiptólogos Dr. Mohammed Mohammed Yousef e Dr. Sabry Farag. Ouvi-los partilhar as suas histórias e descrever os seus papéis — muitas vezes em árabe — a eles, ao diretor da escavação, ao antropólogo que reconstitui os esqueletos, ao capataz dos trabalhadores e aos próprios escavadores, tudo isso serve como uma perspetiva única, quiçá há muito devida, sobre a Egiptologia.
Tesouros escondidos sob a areia escavada por uma equipa egípcia
Testemunhar o orgulho e paixão da equipa enquanto deslindavam os segredos dos seus antepassados é uma viagem incrível e surpreendentemente emocional pelo presente e pelo passado, revelando aquela que, nas palavras do Dr. Mustafa Waziri, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades, representa «a mais significativa descoberta no Egito em quase 50 anos».
Os Segredos de Saqqara: os egípcios continuam a inspirar o mundo
Todas estas experiências e as incríveis descobertas que se fizeram tornaram-se mais gratificantes ainda agora que pudemos partilhar esta viagem com tantos membros Netflix. Durante as suas primeiras quatro semanas, 22 milhões de agregados familiares de todo o mundo escolheram visualizar "Os Segredos de Saqqara", que agora se encontra no top 5 de filmes documentais da história da Netflix. Estamos extremamente gratos a todos os que viram o filme, e é para nós um grande prazer saber que tantas pessoas encontraram algo de que desfrutar, tanto aqueles que aprenderam algo sobre o antigo Egito pela primeira vez, como aqueles que estão mais familiarizados com ele, mas que ainda assim aprenderam ou experienciaram algo de novo.
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