Entretenimento
22 de abril de 2021O Professor Johan Rockström (na imagem) é um cientista internacionalmente reconhecido na área relacionada com questões de sustentabilidade global.
Podíamos imaginar-nos a conduzir numa zona montanhosa, num carro com um motor potente e em excesso de velocidade. Não existem barreiras de proteção na estrada que serpenteia a montanha, em que basta um pequeno erro para sermos lançados pelo penhasco abaixo. Agora, imaginemos que o estamos a fazer com os faróis desligados.
Esta poderia ser a cena de abertura de um filme de Alfred Hitchcock, mas, na realidade, trata-se da história das nossas vidas.
Enquanto cientista que estuda o sistema da Terra, dou sentido ao mundo através dos dados. Contudo, entendo que as pessoas encarem o mundo através das histórias. Durante as últimas duas décadas, apercebi-me de que a maior história na ciência de hoje em dia está carregada de drama, suspense e ação. Enquanto espécie, a humanidade está a derrapar em direção ao abismo. O nosso impacto na natureza está a aproximar-nos perigosamente da capacidade máxima do planeta. Estes são os limites que eu e os meus colegas identificámos, desde as alterações climáticas e o desaparecimento de espécies, até à camada de ozono e à acidificação dos oceanos.
Quão próximos estamos do abismo? É esta a história que contamos no novo documentário da Netflix, Terra no Limite: A Ciência do Nosso Planeta, que estreou no início do verão.
A humanidade desfrutou de um período de 10 000 anos de relativa estabilidade na Terra — um estado de graça. Esta estabilidade é a base da agricultura e da nossa civilização. Tudo o que conhecemos e nos é próximo depende disto.
É tentador pensar que esta se trata de outra história sobre o clima. Mas é muito mais que isso. Trata-se do sistema de suporte de vida da Terra — a biosfera, uma fina camada que cobre a superfície da Terra, onde toda a vida prospera. O meu trabalho consiste em entender as interações entre o clima da Terra, os ecossistemas, a vida, os oceanos, as camadas de gelo, os rios, os lagos, os solos, as florestas, as quintas, o ciclo carbónico… e as pessoas — a economia, os governos e os consumidores. Enquanto espécie, enquanto civilização global, estamos agora no lugar do condutor. Somos a principal causa de alterações na biosfera.
Mas podemos intensificar um pouco mais o drama — os nossos filhos viajam no banco de trás. Estão a gritar «liga as luzes», «dá ouvidos à ciência», «é o nosso futuro que está em jogo». A nossa geração poderá ser a última com a capacidade de manter o planeta dentro dos limites necessários para prosperarmos.
Existe uma pessoa que sabe isto melhor que ninguém: Sir David Attenborough.
O David é o maior contador de histórias sobre a natureza dos nossos tempos. Foi um privilégio imenso colaborar com o David neste documentário. Ele inspirou gerações de pessoas. Agora, através da Netflix, esperamos alcançar ainda mais pessoas para as inspirar a tornarem-se cuidadoras do planeta — protetoras dos nossos pares globais.
Tal como o Sir David diz: «Com importantes decisões globais acerca da biodiversidade e do clima a serem tomadas durante este ano, nunca houve uma altura tão importante para comunicar a ciência do que está a acontecer ao nosso planeta. A investigação apresentada em A Terra no Limite: A Ciência do Nosso Planeta é uma das explicações mais esclarecedoras que já vi das ameaças que enfrentamos e como as podemos abordar. Espero que, após assistirem a este filme, muito mais pessoas percebam a urgência da nossa situação atual e se sintam inspiradas pela possibilidade de criar um futuro estável para nós e para o resto do mundo natural.»
A principal mensagem do filme é que ainda vamos a tempo. Somos uma espécie com uma capacidade de inovação inesgotável. A cooperação é o nosso superpoder. Estamos a começar a observar sinais de que se aproximam mudanças drásticas. A ciência é clara no que diz respeito ao que humanidade tem de fazer. Existem três prioridades: reduzir a emissão de gases com efeito de estufa para zero, proteger os pântanos, os solos, as florestas e os oceanos que absorvem os nossos impactos, e alterar as nossas dietas e a forma como cultivamos alimentos. Esta é a missão. E todos saem a ganhar. Passaremos a viver num mundo mais limpo, saudável e pacífico. Desta forma, podemos todos imaginar esse mesmo carro a chegar a casa em segurança e os nossos filhos a dormirem tranquilamente na cama.